Alessandra estava sentada sobre uma pedra molhada e escorregadia. Sua pele morena estava úmida, e o seu cabelo castanho estava ainda escorrendo sobre os seus ombros.
- Concordo perfeitamente Clarice. – disse Alessandra, passando a mão pelos seus cabelos cacheados e espremendo o excesso de água.
- Alessandra. Não seja ridícula. Vamos pensar como adultas, certo? Quando eu vim aqui, era o mínimo que eu esperava de você! –
Clarice era uma mulher alta e magra. Tinha a pele negra como a noite e olhos castanho-claros. Suas palavras podiam encantar qualquer homem. Ela estava deitada sobre o chão molhado, desfrutando da companhia de Alessandra. Elas discutiam um assunto de extrema importância.
- Mesmo que você ache que a minha atitude é ridícula, eu acredito no que eu faço. Diz-me uma coisa: você nunca quis ir mais longe? Nunca sentiu vontade de ver além do que estas malditas árvores? – Alessandra estava gesticulando ansiosamente, na esperança de que Clarice concordasse. – A gente tem a chance de se livrar nesta primavera.
- Você não entende Ale. É um processo complicado e não dá para fazer num piscar de olhos. Você teria que esperar até a próxima primavera para poder sair daqui. –
Clarice estava se recompondo. Sentou-se no chão esperando que Alessandra entrasse em razão; mas essa atitude não parecia estar muito próxima. Clarice sentiu a umidade chegar cada vez mais depressa. Choveria a qualquer momento e elas poderiam se vestir e discutir num lugar mais humano.
- Eu soube que numa cidade em Irlanda há um livro que tem escrituras antigas, em latim ou grego. Disseram-me que essas palavras são a chave para nos libertar. A única coisa que temos que fazer é ir até a Irlanda, pegar o livro e usá-lo. – Alessandra se levantou e, despreguiçando-se, andou até o riacho que estava a alguns passos dali. Colheu água entre as suas mãos e a espalhou pelo rosto. Estava tão fresca que ela queria pular dentro do rio; mas não podia. Estragaria tudo.
- Quem te disse isso? Os rumores nem sempre soa verdadeiros Ale. – Clarice também se levantou e andou até o riacho e fez o mesmo que Alessandra. Clarice suspirou de alívio e se levantou devagar, olhando para a Alessandra. – Estamos em Itália. São milhões de kilometros! A gente teria que ir até Irlanda de avião. –
Alessandra a olhou de mau jeito. Sabia que ela tinha razão e isso era um verdadeiro problema. As duas estavam vinculadas aos seus respectivos riachos e não poderiam sair dali até a próxima primavera. Elas só podiam sair quando estivesse chovendo, o que não era muito comum.
- Eu realmente odeio meus antecessores. Filhos da mãe.
- Eles amavam este tipo de vida.
- E daí? Não existiam televisões então!
Elas andaram até uma casinha perto do riacho. Era uma casinha imunda, de madeira e maltratada. Parecia que tinha trezentos anos de vida. Entraram através de uma porta improvisada que rangia fortemente cada vez que era movimentada. Assim que entraram, foram até o único móvel que a casa tinha: um conjunto de gavetas cheias de roupas para elas. Além disso, somente havia um espelho enorme de moldura dourada num canto da casinha. Elas se vestiram e saíram de novo, a porta rangendo assim que fechada.
- A qualquer momento. – Lhe disse Andressa a Clarice com expectativa. De repente uma chuva torrencial caiu sobre as suas cabeças deixando-as mais molhadas do que elas já estavam dentro da água. Elas correram até uma pequena trilha que continuava sinuosa por alguns metros, até chegar a uma picape vermelha que as esperava. Clarice pegou as chaves rapidamente e destrancou a camionete para que elas entrassem. As duas entraram rapidamente, fechando a porta após.
- Que chuva heim? Fazia anos que não tínhamos uma dessas. – Clarice sorriu e pois a chave na ignição, arrancando a picape que fazia mais barulho do que a chuva batendo no seu teto.
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