sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ninfas

Alessandra estava sentada sobre uma pedra molhada e escorregadia. Sua pele morena estava úmida, e o seu cabelo castanho estava ainda escorrendo sobre os seus ombros.
- Concordo perfeitamente Clarice. – disse Alessandra, passando a mão pelos seus cabelos cacheados e espremendo o excesso de água.
- Alessandra. Não seja ridícula. Vamos pensar como adultas, certo? Quando eu vim aqui, era o mínimo que eu esperava de você! –
Clarice era uma mulher alta e magra. Tinha a pele negra como a noite e olhos castanho-claros. Suas palavras podiam encantar qualquer homem. Ela estava deitada sobre o chão molhado, desfrutando da companhia de Alessandra. Elas discutiam um assunto de extrema importância.
- Mesmo que você ache que a minha atitude é ridícula, eu acredito no que eu faço. Diz-me uma coisa: você nunca quis ir mais longe? Nunca sentiu vontade de ver além do que estas malditas árvores? – Alessandra estava gesticulando ansiosamente, na esperança de que Clarice concordasse. – A gente tem a chance de se livrar nesta primavera.
- Você não entende Ale. É um processo complicado e não dá para fazer num piscar de olhos. Você teria que esperar até a próxima primavera para poder sair daqui. –
Clarice estava se recompondo. Sentou-se no chão esperando que Alessandra entrasse em razão; mas essa atitude não parecia estar muito próxima. Clarice sentiu a umidade chegar cada vez mais depressa. Choveria a qualquer momento e elas poderiam se vestir e discutir num lugar mais humano.
- Eu soube que numa cidade em Irlanda há um livro que tem escrituras antigas, em latim ou grego. Disseram-me que essas palavras são a chave para nos libertar. A única coisa que temos que fazer é ir até a Irlanda, pegar o livro e usá-lo. – Alessandra se levantou e, despreguiçando-se, andou até o riacho que estava a alguns passos dali. Colheu água entre as suas mãos e a espalhou pelo rosto. Estava tão fresca que ela queria pular dentro do rio; mas não podia. Estragaria tudo.
- Quem te disse isso? Os rumores nem sempre soa verdadeiros Ale. – Clarice também se levantou e andou até o riacho e fez o mesmo que Alessandra. Clarice suspirou de alívio e se levantou devagar, olhando para a Alessandra. – Estamos em Itália. São milhões de kilometros! A gente teria que ir até Irlanda de avião. –
Alessandra a olhou de mau jeito. Sabia que ela tinha razão e isso era um verdadeiro problema. As duas estavam vinculadas aos seus respectivos riachos e não poderiam sair dali até a próxima primavera. Elas só podiam sair quando estivesse chovendo, o que não era muito comum.
- Eu realmente odeio meus antecessores. Filhos da mãe.
- Eles amavam este tipo de vida.
- E daí? Não existiam televisões então!
Elas andaram até uma casinha perto do riacho. Era uma casinha imunda, de madeira e maltratada. Parecia que tinha trezentos anos de vida. Entraram através de uma porta improvisada que rangia fortemente cada vez que era movimentada. Assim que entraram, foram até o único móvel que a casa tinha: um conjunto de gavetas cheias de roupas para elas. Além disso, somente havia um espelho enorme de moldura dourada num canto da casinha. Elas se vestiram e saíram de novo, a porta rangendo assim que fechada.
- A qualquer momento. – Lhe disse Andressa a Clarice com expectativa. De repente uma chuva torrencial caiu sobre as suas cabeças deixando-as mais molhadas do que elas já estavam dentro da água. Elas correram até uma pequena trilha que continuava sinuosa por alguns metros, até chegar a uma picape vermelha que as esperava. Clarice pegou as chaves rapidamente e destrancou a camionete para que elas entrassem. As duas entraram rapidamente, fechando a porta após.
- Que chuva heim? Fazia anos que não tínhamos uma dessas. – Clarice sorriu e pois a chave na ignição, arrancando a picape que fazia mais barulho do que a chuva batendo no seu teto.

Mistério em Kells

A escola de Kells não era tão diferente quanto ele achava. James abriu a porta de seu carro e, bruscamente, pegou a sua mochila e saiu andando até a porta da escola, fechando o carro assim que andava. Odiava aquele lugar. Kells era uma cidade que tinha uma população numerosa e que era cheia de pessoas supersticiosas. Ele nunca fora assim. Tinha mudado para Kells porque queria ser independente. Ou pelo menos, era isso o que tinha falado para a sua mãe. Ela era sobre protetora e, com o passar dos anos, fora odiando tal fato. Até que um dia ele decidiu que não queria mais agüentar isso. E fugiu, justamente para Kells. O último lugar onde a sua mãe o acharia.
- Bem-vindo a Kells! Posso ajudá-lo? – uma mulherzinha de rosto amigável cruzou o seu caminho.
- Oi... – disse James, timidamente. Não escondia a sua estranheza de que alguém completamente desconhecido cruzasse o seu caminho. Normalmente ele não era muito atrativo nem amigável. Muito menos numa cidade aonde ele não conhecia ninguém.
- Sou Illeana. – A moça tinha olhos verdes que brilhavam como pedras preciosas. Ela estendeu a mão pálida e o incentivou com um olhar. James a cumprimentou timidamente. – Não consegui não reparar que você é novo na cidade. Qual é o seu nome? –
A menina falava com uma rapidez impressionante. James tinha que parar para pensar no que ela tinha dito.
- James... Eu sou James. E sim, sou novo na cidade.
- Que legal. Qual é a sua primeira aula?- A menina olhou para ele e emitiu um sorriso brilhante e sedutor. James se limitou a, rapidamente, olhar o cronograma que tinha imprimido na internet. Mas ele teve que olhar mais uma vez; só para ter certeza que esse olhar era para ele.
- Hm... Biologia. – Illeana tocou a sua mão de leve e lhe indicou o caminho. James estava completamente espantado com a beleza estonteante de Illeana. Sua pele parecia macia como veludo e era branca. Muito branca.
Eles atravessaram a porta de entrada que era feita de cristal. Já dentro, tudo parecia ser um caos. Adolescentes para lá e para cá andando com as suas mochilas carregadas de livros que tinham que ser colocados dentro dos armários azuis que estavam espalhados pelo corredor. Illeana o conduziu até o fundo do corredor e virou à direita. Ali, tudo estava mais tranqüilo, porém, não menos cheio. Ela parou a alguns metros de distância da esquina que dobrava o corredor principal e abriu um armário azul para ele.
- Você pode colocar as suas coisas aqui. – Assim que o James colocou a sua mochila dentro, a Illeana o olhou estranhando a sua atitude.
- Que foi?-
- Bom você precisa de, pelo menos, um caderno. A gente vai para a aula de biologia. – Ela disse isso como se fosse obvio. E depois de um momento de reflexão James se sentiu quase estúpido. Ele pegou de novo a mochila num movimento rápido e tirou de lá um caderno e uma caneta. A Illeana sorriu para ele mais uma vez, com aquele sorriso simpático, porém sedutor. Ele ficou hipnotizado novamente pela sua beleza.
- Vamos? – perguntou ela.
- Você também tem aula de biologia? – perguntou James, esperando que a resposta fosse afirmativa.
- Não. Eu tenho aula de Química, mas é ao lado da sua sala. Além disso, eu também vou para a aula, então tenho que pegar as minhas coisas. Estão no corredor três. –
- Corredor três? – perguntou James, seguindo os passos rápidos e ágeis da Illeana. Ela usava uma saia vaporosa com flores e uma blusinha rosa. O James estava quase no paraíso. Ele não conseguia acreditar que ele tivesse a capacidade de estar com uma menina assim já no primeiro dia de aula.
- Sim. É o corredor que está à esquerda do corredor principal. Biologia também esta no corredor três. Igual que química.
- Ah... Agora entendi. – Ela assentiu, sabendo que teria que explicar tudo para ele mais tarde. A mente dela se movia mais rápido do que a sua língua; seus pensamentos às vezes soavam ate aleatórios pela rapidez com que eles surgiam.
Finalmente, após muitos encontros desagradáveis e bruscos com as mochilas alheias, chegaram ao armário azul da Illeana. Estava identificado com um cadeado verde, no qual estava escrito seu nome. Ela tirou uma chave do bolso e abriu o cadeado. Dentro havia tantas folhas e cadernos (sem contar livros) que parecia que a qualquer momento o armário ia explodir. Alguns papéis caíram e Illeana olhou o James, desajeitada.
- Deixo pegar isso para você. – disse James se inclinando para pegar alguns dos papéis.
- Obrigada. – Ela continuou mexendo nos livros até que pereceu que encontrou o que estava procurando. O James olhou o papel antes de entregá-lo para a Illeana. Ali estavam alguns mapas de Kells. Assinalado em vermelho estava escrito o nome de uma menina. E assim estavam em vários outros rios, todos perto da cidade de Kells.
- O que é isto? – perguntou James mostrando-lhe o papel.
- Ah... Na verdade não é nada. Mas obrigada por pegar ele para mim. Achei que tinha o perdido. – James a olhou desconfiado.
Illeana levou James até a sala de biologia que resultou ser a sala cinco no corredor três. Até parecia que ele ia conseguir decorar isso. Eles combinaram de se encontrar depois da aula para que ela lhe mostrasse a escola. James mal podia esperar.